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Opinião· PUBLICADO 2026-06-02
Leitura · 6 min

O conceito econômico de "Nudge" e o porquê de para o Brasil apenas resta pedir por misericórdia

Como ser honesto no Brasil se tornou um mau negócio

Ilustração alegórica: uma mão empurrando pessoas numa plataforma; Representação do Nudge aplicado ao Brasil
Capa · Opinião
Tese
Os políticos brasileiros não são todos corruptos porque são políticos. Eles são corruptos porque são brasileiros. Como você e como eu.

Você já deve ter ouvido falar de John Locke, ou pelo menos de sua teoria sobre a "Tabula Rasa". Ou se não ouviu, tudo bem, eu posso explicar: John Locke era um filósofo inglês, um dos principais nomes de uma corrente filosófica chamada empirismo, onde defendia, dentre diversos ideais, que a mente humana funciona na verdade como se fosse um papel em branco, que por meio das nossas experiências, sentimentos e informações, vai sendo preenchido ao longo de nossas vidas.

Mas eu particularmente acredito que se John Locke tivesse conhecido um brasileiro sequer, até mesmo o mais honesto deles, ele jamais falaria na Tabula Rasa novamente. Porque no Brasil ninguém nasce como uma folha A4 chamex que acabou de ser colocada na impressora. Aqui, todo mundo já nasce com linhas tortas, rasuras, pontas amassadas e borrões de borracha. Nenhuma experiência prévia é necessária para um brasileiro entender que quando a esmola é demais até o santo desconfia. Ou até desconfia, porque o pior de tudo é a ironia de que, mesmo com tanta sabedoria infeliz e prévia antes de ao mesmo nascer e destruir os ideais empíricos de Locke, o brasileiro não tem o mínimo de educação e informação de qualidade. E isso nem é culpa nossa.

Mas não é apenas na filosofia do século XVIII que esse tipo de teoria foi discutida. Outras pessoas também arrumaram formas diferentes de dizer que nós somos moldados pelo ambiente ao nosso redor. Os economistas Richard Thaler e Cass Sunstein, autores do best seller "Nudge", escreveram a obra defendendo a tese de que as pessoas podem ser induzidas a tomar decisões melhores através de pequenos "empurrõezinhos" no dia a dia. Tal conceito, advindo da economia comportamental, busca, por meio de estímulos sutis no ambiente, incentivar bons comportamentos e escolhas inteligentes, sem proibições, punições ou qualquer apelo financeiro.

A ideia é linda. Os exemplos práticos fazem sentido. A aplicação política convence… em países de primeiro mundo. Mas em cenários como o Brasil, essas teorias se tornam piadas assim que cruzam a fronteira. E eu não discordo que o ambiente nos molda. O meu incômodo refere-se à ingenuidade de achar que esses empurrões operam sempre em direção ao bem comum, principalmente quando o nosso ambiente é projetado para fazer exatamente o oposto.

Em países como o Brasil, os nudges funcionam distorcidamente. Se a economia comportamental parte do princípio de redesenhar o ambiente para induzir o cidadão ao bem comum, o layout do Brasil funciona ao contrário, te sabotando até você entender que a única escolha racional nesse país é ser egoísta, desonesto e corrupto para conseguir sobreviver, ter oportunidades, ou estabilidade.

No Brasil, seguir a regra do jogo significa, quase sempre, ser trouxa.

E o que faz essa armadilha histórica ser sempre eficiente é justamente a nossa falta de informação. O brasileiro médio não tem o mínimo de educação formal e informação de qualidade, o que o transforma na presa perfeita para o teatro político. Nós fomos ensinados a ter fé em "salvadores da pátria", a acreditar em promessas, e a cair em discursos bonitos, quando a verdade é que todo político, sem exceção de partido ou ideologia, mente por profissão. Tudo que parecer uma boa gestão pública é propaganda eleitoral. E os idiotas acreditam.

Se a nossa educação fosse adequada, se as escolas ensinassem o mínimo de senso crítico, de lógica, de economia, a população saberia ler as entrelinhas, cobrá-los de verdade e votar com o cérebro. Mas é óbvio que a prioridade do governo não é uma população educada. Afinal, um povo sem instrução é indiscutivelmente mais fácil de ser explorado. O analfabetismo funcional do Brasil é uma miséria da população e um benefício da política.

O resultado disso é uma herança amaldiçoada que se renova a cada geração. O ambiente brasileiro nos corrompe de tal forma que o negligenciamento progressivo de elementos éticos nas relações sociais virou padrão e ganhou identidade. Nós nascemos com a corrupção no sangue e na cultura por pura necessidade de adaptação, ou melhor, sobrevivência. E por causa desse ciclo de malandragem política e um povo cúmplice do suborno rotineiro, a realidade é triste. Nós não veremos nossos filhos viverem em um Brasil bom, digno e justo. E, se formos honestos de verdade, nem os nossos netos verão. O buraco já está fundo demais.

Thaler e Sunstein ganharam o Prêmio Nobel acreditando que as falhas humanas são apenas pequenos erros que podem ser consertados com um "empurrãozinho" inteligente do Estado. Eles defendem um governo ético, um cidadão informado e um papel em branco. Mas tentar aplicar essa lógica em uma sociedade estruturalmente corrompida pelas próprias instituições e raízes seria um delírio.

E antes que você acabe de ler esse texto pensando: "Mas eu sou honesto", pare de ser bobo.

Olhe-se no espelho duas vezes antes de posar de santo.

A corrupção brasileira não é exclusiva de quem usa terno e gravata no Congresso. Ela está em todos os lugares. No radar que você tenta burlar na estrada, na assinatura da Netflix dividida contra as regras, no atestado médico falso para faltar ao trabalho. E eu não sou exceção. O que temos que entender é que os políticos brasileiros não são todos corruptos porque são políticos. Eles são corruptos porque são brasileiros. Como você e como eu. São apenas o reflexo da nossa própria sociedade.

Portanto, nesse projeto de purgatório onde o ambiente nos empurra diariamente para o egoísmo, ninguém sai de mãos limpas. Se você acha que é a única folha Chamex impecável, não se engane. Todos nós fazemos parte desse esquema. Mesmo sem perceber. E é por causa dele que a única coisa que nos resta é pedir por misericórdia.

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